Deslivros:Lúcia e o feiticeiro

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Da série “Assim Nasceram os Provérbios…”


Numa época qualquer, numa região qualquer e numa aldeia qualquer, morava Lúcia, tão linda, tão exuberante, que diziam ser sósia de Iracema, a virgem dos lábios de mel.

Era tão parecida com a personagem de José de Alencar que foi convidada a interpretá-la no cinema; só não aceitou porque não queria fazer papel de índio.

A única coisa que a diferenciava de Iracema é que Lúcia não era mais virgem. Mas, como virgindade não era coisa que ficasse à mostra (naquela época não existiam biquínis tão ousados), ninguém tinha percebido, pois, na intimidade, ela era muito fechada.

Como toda mulher bonita, Lúcia também tinha dono. Só que não era um namorado comum: era um sujeito feio, muito feio, monstruoso. E, como se não bastasse tanta feiura, ele era feiticeiro.

D. Sofia, a mãe de Lúcia, quando o conheceu, ficou preocupadíssima. Deduziu logo que a filha tinha um sério problema nas vistas. Sua primeira providência foi arrastar a moça ao oculista. Mas que triste decepção! O doutor atestou que os olhos da garota eram tão perfeitos quanto os outros detalhes que ele, contrafeito, não podia examinar.

Não convencida com a resposta do doutor, D. Sofia recorreu então a uma famosa cigana para saber por que a filha, tão bela e inteligente, tinha se apaixonado por um sujeito como aquele. Desta vez o golpe fora mais rude! Ouvira da desdentada boca da vidente que Lúcia estava presa a um feitiço e que dele só se libertaria quando alguém vencesse o feiticeiro num duelo. Ora, como alguém, em sã consciência, teria coragem de desafiar um feiticeiro que lutava com as armas do demônio?

As vizinhas, compadecidas com a situação de d. Sofia, fizeram dezenas de novenas e trezenas, mas, depois de certo tempo, como não havia vela que chegasse, desistiram.

E as esperanças de D. Sofia diminuíam à medida que o amor da filha crescia vertiginosamente. Por fim, conformada com a triste sina que o destino lhe reservara, d. Sofia mudou de tática e já que não poderia dissolver aquela união, tentaria, ao menos, melhorá-la. Assim sendo, ela começou a juntar dinheiro para mandar o futuro genro para o Brasil (embora sempre tivesse vontade de mandá-lo para outro lugar), para ser operado pelo dr. Pitanguy.

Um dia, porém, começou a circular pela aldeia a notícia de que um príncipe varão (no bom sentido, claro) estava procurando a mais linda donzela da região para desposá-la. Alguns chegavam a atestar que o dito cujo era filho do Príncipe Encantado (aquele que comeu a Branca de Neve na história da maçã, desculpe, aquele da história em que a Branca de Neve comeu a maçã).

Fofocas à parte, não tardou o dia em que, numa bela manhã, o Príncipe, montado em seu fogoso cavalo, parasse à porta do castelo do feiticeiro. Como de costume, Lúcia lá estava, pois todas as manhãs tomava o seu café em companhia do monstro, para que ele mordesse suas bolachinhas, que faziam crec-crec.

Em poucos minutos, a aldeia toda se reunira em torno do castelo para assistir o profetizado duelo.

— Azarakadum! – gritou o jovem Príncipe, chamando pelo feiticeiro. — Saia! Saia e me entregue a linda donzela!

Depois de um breve silêncio, seguiu-se um longo silêncio.

Ansiosos para viver as emoções que a contenda prometia, o povo todo gritava em uníssono:

— Saia, covarde! Saia, monstro horroroso!

Eis que de repente a porta do castelo se abre e surge a figura horrível do feiticeiro, com a sua capa preta e ensebada envolvendo-lhe o corpo disforme. Atirou ao povo um olhar diabólico e a turba se conteve!

Durante alguns segundos, não se ouvia nem uma mosca! (O prefeito caprichara no Detefon!)

O Príncipe desceu do cavalo empunhando a sua espada grossa e latejante. O feiticeiro pronunciou algumas palavras ininteligíveis, depois ergueu o braço e fez surgir uma reluzente espada.

— Ohhhhh! – fez o povo, estarrecido pela magia!

— Iiiiiiihh! – fez o príncipe, arrependido de ter se metido naquela enrascada.

O feiticeiro permanecia imóvel, segurando a espada acima da cabeça, as sobrancelhas franzidas, o olhar duro. O príncipe ficou paralisado, a sua espada escorregava em suas mãos suadas, as pernas amoleceram e os músculos da bexiga se afrouxaram. Quando ele sentiu as primeiras gotas atravessando a uretra, pensou no vexame que iria ter de carregar pelo resto de sua vida. Então, num gesto desesperado, atirou-se sobre o feiticeiro que, mais rápido que um raio, guardou no bolso a sua espada retrátil e se entregou, sem qualquer resistência.

Sob os aplausos do povo, Lúcia apareceu na porta do castelo e correu para os braços de seu herói, apaixonada.

Os dois subiram no cavalo e desapareceram na curva da estrada poeirenta.

E assim, viveram felizes por quase uma semana!


Moral da estória: Quem um feio ama, um bonito lhe aparece!